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    ARTIGO | A ARTE DA CONVENIÊNCIA: A COVARDIA POLÍTICA DOS GADELHA EM CANAÃ DOS CARAJÁS

    26/10/2026Sem comentários5 Mins Read
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    Mal a poeira da derrota de Hana Ghassan baixou no Pará e os especialistas na velha arte da conveniência política já começaram a ganhar protagonismo. Em Canaã dos Carajás, os personagens dessa história são bastante conhecidos: a prefeita Josemira Gadelha e seu intrépido esposo, Eugênio Gadelha, eleito deputado estadual pelo MDB com 52.726 votos e carinhosamente apelidado pelo Portal Papo Carajás de “Picolé de Chuchu”.

    O que chama atenção não é apenas a derrota eleitoral do grupo governista, mas a impressionante capacidade de alguns políticos de mudar de direção conforme sopra o vento do poder. E, nesse quesito, os Gadelhas parecem dispostos a disputar o primeiro lugar no campeonato da conveniência.

    No último sábado (24), véspera do segundo turno presidencial que culminou na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, Eugênio Gadelha participou de uma grande carreata em apoio a Flávio Bolsonaro pelas ruas de Canaã dos Carajás. Até aí, alguém poderia argumentar que cada político tem o direito de escolher seu candidato. Evidentemente que tem. Mas o problema começa quando a escolha pessoal escancara uma contradição política difícil de explicar.

    Afinal, Eugênio acaba de conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará pelo MDB, legenda que integra o grupo político de Helder Barbalho e que, no cenário paraense, esteve alinhada à candidatura de Lula. O ex-governador e senador eleito Helder Barbalho não apenas defendeu a reeleição do presidente, como também trabalhou pela mobilização de lideranças municipais.

    Enquanto Helder buscava manter sua base política unida, o recém-eleito deputado emedebista preferia desfilar em apoio ao adversário presidencial. Uma postura que levanta uma pergunta inevitável: o MDB serviu para eleger Eugênio, mas deixou de servir quando chegou a hora de demonstrar fidelidade política?

    JOSEMIRA: O SILÊNCIO QUE FALA ALTO

    Se a postura do chamado Picolé de Chuchu merece questionamentos, a atuação política de sua esposa, a prefeita Josemira Gadelha, também não pode passar despercebida.

    Josemira, que frequentemente demonstra força política e influência eleitoral em Canaã dos Carajás, não conseguiu transformar esse prestígio em uma votação expressiva para Hana Ghassan. Os números apresentados são reveladores: Hana recebeu apenas 14.293 votos no município, enquanto seu adversário, Dr. Daniel, alcançou 33.174 votos.

    Uma diferença de 18.881 votos. Uma derrota que não pode simplesmente ser varrida para debaixo do tapete.

    É claro que nenhum prefeito é proprietário dos votos da população. Entretanto, quando uma liderança reivindica protagonismo político e influência sobre o eleitorado, também precisa aceitar os questionamentos quando os resultados das urnas não correspondem às expectativas.

    E onde estava a força política de Josemira durante a campanha de Hana? Onde estavam a mobilização, o entusiasmo e a disposição de defender publicamente o projeto eleitoral de seu próprio grupo?

    No segundo turno presidencial, o silêncio político da prefeita também chamou atenção. Enquanto outras lideranças se movimentavam, Josemira não demonstrou, ao menos publicamente com a mesma intensidade, empenho pela reeleição de Lula.

    Na política, o silêncio também é uma escolha. E, dependendo das circunstâncias, pode revelar muito mais do que um discurso inflamado.

    DE OLHO EM 2028: A CONVENIÊNCIA TEM ENDEREÇO?

    Nos bastidores, a movimentação dos Gadelhas desperta outra reflexão: estaria Josemira preparando o terreno para uma aproximação com setores da direita, pensando nas eleições municipais de 2028?

    A hipótese ganha relevância diante do interesse natural da prefeita em preservar seu grupo político e construir uma candidatura competitiva para sua sucessão.

    Se essa aproximação estiver realmente em curso, a estratégia poderá ser interpretada como mais uma demonstração de que, para determinadas lideranças, as convicções partidárias ficam em segundo plano quando o assunto é a manutenção do poder.

    O MDB pode até ter sido o caminho para Eugênio conquistar o mandato de deputado estadual. Mas, diante dos acontecimentos, fica a impressão de que a fidelidade ao projeto político do partido pode ser negociada conforme a conveniência do momento.

    E A CARREATA? QUEM PAGOU A CONTA?

    Outro ponto que merece esclarecimento é a estrutura utilizada na carreata em apoio a Flávio Bolsonaro, realizada em Canaã dos Carajás.

    Há questionamentos sobre um possível emprego de recursos ou estruturas públicas municipais na mobilização. Caso tenha ocorrido utilização de dinheiro público para beneficiar uma campanha eleitoral, o episódio exige apuração pelos órgãos competentes. Até que existam documentos e provas, porém, essa suspeita não pode ser tratada como fato comprovado.

    Cabe à Prefeitura de Canaã dos Carajás esclarecer se houve qualquer participação financeira, logística ou estrutural da administração municipal no evento.

    Transparência não deveria ser favor político. É obrigação de quem administra recursos da população.

    ALÔ, HELDER BARBALHO! ALÔ, CHICÃO!

    Diante desse cenário, fica um recado político aos senadores Helder Barbalho e Chicão: vale a pena observar com atenção o comportamento de determinadas lideranças que cresceram eleitoralmente dentro de um projeto político, mas parecem demonstrar pouca disposição para defendê-lo nos momentos decisivos.

    O resultado das urnas em Canaã, a postura discreta de Josemira durante as campanhas e a participação de Eugênio em um ato de apoio ao adversário de Lula compõem um cenário que merece explicações.

    Não se trata de exigir obediência cega a partido algum. Trata-se de cobrar coerência, transparência e respeito aos compromissos políticos assumidos.

    Porque uma coisa é ter independência política. Outra, bem diferente, é usufruir da força de um grupo para conquistar mandato e, logo depois, caminhar na direção contrária sem sequer explicar a mudança de posição.

    No fim das contas, o casal Gadelha terá de responder politicamente por suas escolhas. E o eleitor de Canaã dos Carajás tem todo o direito de perguntar se está diante de uma mudança legítima de convicção ou de mais um capítulo da conhecida arte da conveniência.

    Quanto ao Picolé de Chuchu, o apelido continua rendendo. Mas, pelo visto, o que anda derretendo mesmo é a coerência política.

    Editorial — Portal Papo Carajás

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