Hanseníase tem subnotificação no Pará, diz pesquisa

Estudos científicos comprovam que existe uma endemia oculta de hanseníase em diferentes estados do Brasil, incluindo o Pará. Isso significa dizer que as pessoas estão doentes e não sabem. Sem tratamento, acabam transmitindo a doença para outras pessoas. Embora os dados oficiais mostrem que houve queda nos casos da doença no País e no Estado, nos últimos anos, o pesquisador Moisés Silva, que desde 2009 estuda a doença, afirma que há subnotificação dos casos da doença no Pará. Isso foi constatado há cerca de 10 anos pelo Projeto de Detecção dos Casos Novos de Hanseníase pelo Estado do Pará, no qual Silva atua coordenado pelo doutor Cláudio Guedes Salgado, no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal do Pará (UFPA). A Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) confirmou que existe subnotificação dos casos e que realiza ações nos municípios paraenses para alcançá-los.

Em 2004, foram registrados 5.976 casos da doença no Estado. O número caiu para 2.561 em 2017. “O projeto estuda a doença desde 2000, mas a partir de 2009 faz a procura ativa dos casos, e já visitou 15 municípios no Pará. Em cada um deles, 4% das pessoas avaliadas clinicamente apresentavam sintomas de hanseníase, não tinham sido diagnosticadas antes e, consequentemente, não tratavam e estavam transmitindo a doença”, afirmou o pesquisador.

Somente em Belterra, no oeste do Pará, nas vilas de Corpus Cristi e São Jorge, que ficam na Rodovia Santarém-Cuiabá, o professor de Biologia destacou que foram avaliadas 149 pessoas e diagnosticados sete casos durante elaboração de tese de mestrado intitulada “Relevância epidemiológica do tatu (dasypus novemcinctus) na transmissão do mycobacterium leprae em comunidades rurais do município de Belterra, Pará”, tendo como autora Juliana Portela, entre 2015 e 2017.

“Isso mostra que está muito longe de controlar a doença no nosso estado. Isso ocorre porque falta, por exemplo, cobertura da ação da Estratégia de Saúde da Família – o que é arriscado para ocorrência de casos de doenças crônicas e infecciosas que levam longo tempo para se manifestar, como é o caso da hanseníase. A Organização Mundial de Saúde estabelece que para ter a doença controlada deve haver menos de um caso para cada 10 mil habitantes”, enfatiza o pós-doutor em Biologia Moisés Silva.

Ainda segundo ele, a ausência de diagnóstico da doença não significa ausência da doença. “Muitos pacientes não têm acesso ao sistema de saúde e simplesmente não são diagnosticados e, mesmo quando têm acesso, não são diagnosticados imediatamente. Falta treinamento para diagnosticar e tratar a hanseníase, especialmente nas suas formas mais iniciais”, critica.

Orientações

Os municípios já visitados pelo projeto, que se mantém com financiamento de órgãos de fomento nacionais e internacionais, foram: Salvaterra, São Miguel do Guamá, Marapanim, Maracanã, Cametá, Mocajuba, Jacundá, Santo Antônio do Tauá, São Caetano de Odivelas, Castanhal, Santarém, Oriximiná, Redenção, Breves, Belterra, Acará, Belém (Ilha do Combu e Distrito de Mosqueiro), Curralinho, Senador José Porfírio e Marituba.

Em todos os municípios os profissionais de saúde são orientados para o diagnóstico da doença pela equipe do projeto e são gerados relatórios com os indivíduos diagnosticados, que são encaminhados para a Secretaria de Saúde do Município, a qual notifica os casos e encaminha os pacientes para o tratamento da saúde.

“Temos novo projeto aprovado pelo Ministério da Saúde, para estudar e treinar pessoal em cinco municípios do Pará, entre este ano e o primeiro semestre de 2019. Neste caso, os municípios prioritários foram apontados pela Sespa, a partir de critérios epidemiológicos da Secretaria. Contamos com projeto à espera de aprovação no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para seguirmos as visitas em outros municípios, para avançarmos nos estudos da hanseníase no Pará”, informa o pesquisador da UFPA. Ele recentemente publicou artigo como resultado da sua tese de pós-doutorado no exterior com título “Hanseníase multirresistente a poliquimioterapia no Estado do Pará”, na qual levantou essas questões, que geraram repercussão na mídia norte-americana e no Senado, em Brasília (DF).

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